Noite fria.
É nesses dias típicos, e monótonos eu senti uma dor, e ela era fria como a neve...
Nesse mesmo momento a chuva começou a cair, lá fora... Olhei pela janela, e a dor que só aumentará me fazia sentir pior, tive então vontade de vestir uma roupa branca, a roupa mais leve que existia em meu guarda roupa... Achei apenas um velho vestido, que mais parecia um corpete em meu corpo, um vestido que havia sido de minha mãe, e mesmo assim ainda era “branco” (ainda). Eu naquela altura do campeonato já não me entendia muito bem, porque a dor já me causará náuseas, então senti vontade de tomar água, dizem que a água é capaz de curar tudo, então assim fiz, a dor que sentia na garganta passou por alguns instantes, pena que foram só instantes, fui até a janela, com pretensão de apenas sentir o vento tocando meu rosto, pena que aquilo não me fez melhorar, pensei então que qualquer pessoa durante aquela noite fria e chuvosa, estaria tomando um achocolatado, e ou assistindo a um filme que passará na televisão naquele momento, em meio de tantas pessoas eu não sabia qual era o meu propósito e nem conseguia me encontrar, então nesse mesmo momento de pensamento frustrado senti vontade de deixar a chuva cair sobre meu corpo. É bem como dizem por ai “A chuva pode lavar uma alma”... Não troquei de roupa, apenas desci as escadas de meu prédio beirando o corrimão, rezando para que ninguém pudesse me ver, sai na portaria, me deparei com o frio daquele lugar, e como a noite estava sombria, vi que não havia lua iluminando o céu... Senti então vontade de voltar para meu quentinho e aconchegante cobertor, mas não fiz, alguma coisa me empurrava para a chuva, senti as primeiras gotas de chuva, depois de algum tempo senti um gosto agridoce na boca, não era chuva eram as minhas lagrimas que já se misturavam a ela. Como sempre eu não me entendia, minha roupa já havia ficado transparente, e naquele momento eu parei de rezar para que ninguém me visse e me veio toda a minha história na mente às coisas que vivi, e o que me fizera descer todos aqueles degraus vestir uma roupa branca, e deixar a chuva me lavar, percebi que tudo isso era a vontade de lavar minha alma, o frio já não estava mais tão gelado naquele momento era como se ele me abrassace, e me desse espaço para chorar, após um tempo em pé... Olhando a chuva procurando a lua, escutando o silêncio, e esperando que minha dor passasse, senti vontade de me ajoelhar, e também deverás, pois pelo que havia percebido estava ali em pé paralisada já havia duas horas. Senti que minha dor só aumentava e aquela portaria, aquele lugar tinha se tornado pequeno para abrigar todas as coisas que sentia, apesar do cansaço e da chuva incessante decidi dar uma volta no quarteirão, o frio já não era nada, comparado a todas as outras coisas que a chuva me fazia sentir, era como uma retrospectiva. Era como se eu não fosse eu mesma, era um transe hipnótico do qual eu não queria acordar, andei durante tempos, e quando me senti cansada o suficientemente para me fazer voltar para casa, eu encontrei um poste, do qual só sairia de perto após tê-lo derrubado... Esmurrei, chutei, dei joelhadas, até não poder sentir meus membros, cai na real eu não conseguiria derrubar o poste, ao invés disso tinha conseguido esfolar as mãos, pés, braços, enfim todos os outros membros. Sentei-me ali mesmo, na calçada, e gritei até ficar sem voz... E quando me vi rouca, já sem lagrimas, e totalmente machucada senti mais raiva ainda por não saber o que me fazia tão mal... Quebrei todas as regras da vizinhança... Eu só me lembro de ter gritado por várias vezes, a frase “Porque eu?” Pela primeira vez em minha vida, tinha me dado à oportunidade de expressar cada gota de sentimento que podia existir em alguém, e percebi que não eram bons sentimentos. Sentia-me nervosa, estressada, desamparada, e posso dizer até mesmo angustiada... Tudo o que tinha medo, todas as coisas da qual me protegi e me preservei para não ter a experiência de sentir, senti de uma só vez... Eu me vi fraca, acabada, pela primeira vez em anos, vi que o que havia construído era uma mentira, eu era sim fraca, medrosa, e eu podia amar, não era ruborizada, como havia pensado...
Era dia e os carros já começavam a passar... Era dia e eu nem havia dormido ainda, algumas pessoa chegaram a pensar que naquele estado em que eu estava, eu tinha bebido a noite toda, e não tinha conseguido chegar em minha casa, já outras temiam pelo pior após verem minhas mãos, pernas e braços. Eu nem ligava, apesar de tudo já podia sentir um gostinho de felicidade, dali para frente seria diferente, eu sabia expressar alguma coisa, apesar de terem sido apenas lagrimas e até mesmo um completo lapso de nervoso, para mim era alguma coisa maior... Levantei-me e quando ia à direção da portaria, vi o amor da minha vida fazendo caminhada com outra mulher de mãos dadas, e eles sorriam juntos... Eu não podia me descontrolar desta vez eu precisava abaixar a cabeça e esperar que ele não me visse andei o mais rápido que podia para chegar à portaria antes que ele me cumprimentasse, não deu tempo. Ele e aquela bela mulher que o acompanhará me cumprimentarão com um beijo no rosto, ele segurou em minhas mãos percebeu os machucados, e perguntou se eu estava bem, afinal era a primeira vez que ele me via daquela maneira, desgrenhada, machucada, estava ali como um ser humano de carne e osso, e apesar de não estar bem por vê-lo com outra, levantei a cabeça, olhei suavemente em seus olhos, e dirigi a ele a seguinte frase:
-“Estou melhor que ontem, e mais feliz que amanhã, pois ontem já passou e amanhã eu nem sei se chegará”-Terminei a frase com um breve sorriso no rosto... A mocinha que o acompanhava também sorriu, eles se despediram e foram embora, senti-me massacrada... Mas minha face implacável não demonstrava sinais de sentimentos, subi as escadas do prédio com coração na mão, meus olhos podiam sagrar, e eu queria vomitar tudo isso. Lembrei-me que eu até estava feliz, tinha aberto o coração para a vida, e ela me pregará uma peça de péssimo gosto. Subi me arrumei e desci novamente, como se nada tivesse acontecido e como se aquela noite só pudesse virar um relato, olhei para o céu e pude ver o sol... Coloquei os óculos, e voltei a ser aquela mulher" robótica" do dia - a - dia... (-aquilo foi só mais uma experiência)
De: Mayara Silva

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